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No Complexo da Penha, o exemplo da agroecologia urbana

Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM), no Complexo da Penha (RJ), tem como principal frente de trabalho a promoção da soberania alimentar em solo urbano sob as bases da agroecologia
Paulo Schueler - EPSJV/Fiocruz | 19/02/2024 13h51 - Atualizado em 19/02/2024 13h58

Um aglomerado de treze favelas, com população de cerca de 100 mil habitantes e extensão territorial de 580 mil metros quadrados. Este é o Complexo da Penha, localizado no Maciço Misericordioso, na Zona Norte do Rio de Janeiro, do qual a Serra da Misericórdia é tida por ambientalistas como o último suspiro da Mata Atlântica da localidade. É nesse local, atualmente chamado de Vila Cruzeiro, cuja ocupação remonta ao período da escravidão, quando as encostas dos morros da Penha eram destino de escravizados foragidos que geraram o Quilombo da Penha, que moradores se organizaram e criaram o Centro de Integração na Serra da Misericórdia (CEM).

Instituído a partir da busca por um território “de bem viver” e tendo como principal frente de trabalho a promoção da soberania alimentar em solo urbano sob as bases da agroecologia, o CEM estabeleceu parcerias com diferentes coletivos, redes e instituições, entre elas a Fiocruz, para atuar em todas as pontas da cadeia produtiva de alimentos, do cultivo ao consumo. Fundadora do CEM, Ana Santos se define como educadora popular que trabalha com agroecologia urbana na favela, “onde a gente desenvolve atividades com as crianças na Escola Popular e Agroecológica, no contraturno do horário escolar, trabalhando os temas da agricultura, da leitura, cultura, esportes e os quintais da floresta”.

De acordo com Santos, o maior desafio de produzir alimentos dentro de uma área urbana está na ocupação do território. “Eu estou falando de um território que tem ocupação de narcotráfico, que vive em disputa, com uma pedreira que explode pedra toda semana... Então, lidamos tanto com a poluição quanto com a falta de disponibilidade da terra”, ressalta. Essas dificuldades, inclusive, fazem com que, muitas vezes, ela e seus companheiros tenham que produzir os próprios insumos através da compostagem. Segundo Santos, a ocupação desse território para a produção de alimentos precisa vencer constantes desafios logísticos. “O único lugar pelo qual carros podem chegar até o local é por dentro da pedreira, uma área perigosa. Quem entra para entregar insumos cobra um valor com sobrepreço, por assim dizer”, relata.

Outro desafio, o do acesso permanente à água para a produção, também foi contornado de forma coletiva. “A falta d’água é constante, então criamos uma cisterna. Vencido isso, temos o problema da luz, pois como há muita queda no fornecimento de energia, nem sempre a nossa bomba [para a água] funciona”, conta. De certa forma, a criatividade diante dos desafios logísticos torna a produção efetivamente agroecológica. “Somos ‘zero veneno’. A gente utiliza o esterco da vaca, o esterco da galinha, a água do lago do peixe, a compostagem... Nunca produzimos com veneno, e o nosso maior desafio é produzir esses compostos próprios, gerando autonomia”, diz, referindo-se ao não uso de agrotóxicos.

Tantas dificuldades trazem a prioridade adicional de mobilizar mais pessoas para estabelecer um quadro permanente de militantes da produção agroecológica no local. “É desafiador envolver a juventude para que veja a agricultura urbana enquanto valor e queira estar envolvida nesse trabalho. É muito flutuante o público que se envolve na produção, nem sempre a gente consegue se manter muito tempo com as mesmas pessoas”, complementa. Santos aposta na produção de alimentos no Complexo da Penha como contraponto ao que a realidade social insiste em impor àquela população, promovendo a socialização através do trabalho coletivo e de encontros que permitem não apenas as trocas de experiências sobre a prática da agricultura urbana e da educação alimentar, mas também a abordagem de temas transversais, como a Saúde.

A garantia de sustentabilidade econômica do projeto ajudaria no fortalecimento destes vínculos de trabalho colaborativo, aposta ela, que não esconde a necessidade de apoio e a busca por conexões com políticas públicas, cujo maior exemplo é o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que compra 30% dos alimentos para uso nas escolas da agricultura familiar. “Para sermos autônomos, precisamos de apoio. Precisamos de equipe, de equipamentos, sementes, com isso conseguiremos avançar. E precisamos de assistência técnica continuada, com acompanhamento sistemático de nossas ações. Buscamos o diálogo nas três esferas de governo, e junto a alguns deputados estaduais da Alerj [Assembleia Legislativa do Rio de janeiro] conseguimos dar mais visibilidade para o projeto através do Plano de Ação Popular do Complexo do Alemão [documento lançado em 2022 que consolida a articulação de organizações e lideranças locais que lutam por melhorias naquele território a partir de 11 temáticas, dentre elas Saúde, Educação e Meio Ambiente]”, ressalta.

Os alimentos e demais produtos do coletivo – como sabão, repelente e xaropes naturais – são consumidos atualmente pela Escola Popular de Saúde do Complexo do Alemão, e através do serviço de catering, por instituições parceiras. Ana afirma que o CEM já efetuou cadastro para fornecimento na Central de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro (Ceasa) e no programa Mesa Brasil, a Rede Nacional de Bancos de Alimentos do Serviço Social do Comércio (Sesc). “Mas não pretendemos comercializar a produção até que a gente consiga abastecer a nossa comunidade”, afirma.

 

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